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Author : / Date : 2006-01-07 08:01
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A MILONGA

No século XIX, a população negra foi a primeira a ocupar os bairros pobres de Buenos Aires, os mesmos onde se instalam em seguida os camponeses argentinos e os emigrantes à procura de trabalho. É então que começa a surgir uma nova forma musical resultante deste encontro: a Milonga. Sob o nome de “milongón”, depois de milongas, como nos casos do tambo e do tango, a palavra designa a princípio o sítio onde é dançada. Será utilizada em seguida para denominar igualmente a rapariga com quem se dança; os emigrantes solitários devem ter, sem dúvida, muitas vezes, pago os favores desta milonga ou milonguera, com quem passavam a noite e a palavra adoptará o significado de rapariga de vida fácil.
Quando a palavra milonga começa a ser utilizada para designar a música que se dança à maneira de milonga, com as “milongueras”, o termo serve para identificar as peças de ritmo relativamente rápido, aparentadas com o cabombe. Mas a melodia e a instrumentação foram transformadas. As cores africanas atenuam-se, o tambor desaparece. Menos negra, a milonga manifesta por sua vez influências rurais e mesmo estrangeiras. Aí se encontra a reminiscência de melodias tradicionais provenientes do folclore que se desenvolveu entre as populações campesinas a partir de músicas de origem espanhola. Mas começaram igualmente a notar-se-lhe influências emigrantes. A melodia evoca a tarantela italiana; é tocada à guitarra, o que contribui para lhe dar uma cor mais mediterrânica; começa a empregar-se o violino com um acento melado que lembra as tradições da Europa de Leste.

Esta amálgama é feita ao acaso dos encontros que a multi-etnicidade dos bairros populares da capital proporciona. Podemos imaginar que um músico negro, a quem se tenha pedido para tocar uma ária campesina, a tenha interpretado colorindo-a com a sua maneira particular de tocar; um músico emigrante a quem se pede um candombe, toca-o juntando-lhe, sem querer, a modulação das suas origens. Gradualmente, estabelecem-se novas formas que nascem deste inter-influência das diversas tradições musicais que os emigrantes trouxeram na bagagem.
A milonga que assim nasce é uma música de festa. Sorridente e prazenteira, torna-se rapidamente a rainha dos bailes populares. Associamo-la à nova sociedade dos “arrabales”. E porque é identificada à gente de mau porte, a milonga vê-se confinada aos lugares de má vida; ela será tocada, se não nos bordéis, em todo o caso nas festas populares olhadas com maus olhos pelos bem pensantes do centro da capital.

Fonte: Pierre Monette
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