ENTENDER O TANGO
...“Somos um povo triste”. A frase do motorista de táxis, aparentando 65 anos, contrastou com o cenário deslumbrante do centro de Buenos Aires no início da noite, com seus luminosos brilhando como se fosse Las Vegas ou Times Square, com o Obelisco totalmente iluminado, ao fundo, no centro da Avenida 9 de Julho. “Mas a cidade é linda e o tango tem obras primas”, repliquei. “O tango é bonito, mas é triste”, respondeu com o mesmo tom de antes, de resignação...
...Para se entender a música e a dança de um povo tem-se que passar os olhos por sua história, captar a essência de sua alma. O tango é dramático, passional, misterioso, lendário, porque a Argentina carrega isso tudo com intensidade. O inusitado cemitério de navios cinzentos e enferrujados atracados na frente de La Boca com seu El Caminito e suas casas multicores, onde nasceu o tango argentino, tem algo de simbólico, evocando fantasmas e o passado. Ali é um porto onde o tempo parou para sempre. O som do bandoneon que chega da esquina combina com o cenário, é bonito... Mas realmente é também triste. O taxista tinha razão.”
Milton Saldanha – Editor Jornal Dance (SP) – trechos de um editorial

